terça-feira, 14 de junho de 2011

HERMENÊUTICA QUEER - Teoria e Metódos

1 – ETIMOLOGIA DA PALAVRA QUEER
GÊNESE – Inicialmente fora uma gíria inglesa, a qual significava literalmente “estranho” e/ou “esquisito”. Tendo sido também sobreposto a palavra inglesa “Queen” (rainha), tendo ficado com um significado atribuído a um homossexual masculino bastante afeminado, pois este seria ao mesmo tempo uma rainha e algo estranho ao mesmo tempo. Outra derivação seria que queer derivou da palavra quare do Inglês Antigo, que significava "questionado ou desconhecido".
ADJETIVO DEPRECIATIVO - Por muito tempo a palavra Queer foi considerada ofensiva aos homossexuais, que significa pejorativamente “bicha” (no Brasil) e “paneleiro” (em Portugal).
SIGNIFICADO ATUAL - De um termo pejorativo inglês, que colocava constantemente à margem os apontados por ela, a palavra queer passou a denominar um grupo de pessoas dispostas a romper com a ordem heterossexual compulsória estabelecida na sociedade contemporânea, e mesmo com a ordem homossexual padronizante, que exclui as formas mais populares, caricativas e até artísticas de condutas sexuais. Assim, travestis, drag-queens, transsexuais e outras personagens consideradas estranhas, e por isso, não aceitas socialmente até mesmo por gays, ao se denominarem queer ganham espaço social e individualidade, se distanciando cada vez mais de conceitos tais como desviantes ou aberrações.
2 – ORIGENS HERMENÊUTICA QUEER
ACT-UP
Movimento de reavaliação da SIDA ou movimento dissidente da SIDA - Surgido com o advento da AIDS no final da década de 70 em San Francisco/USA. Formado por ativistas, jornalistas, cidadãos, cientistas, pesquisadores e doutros que negam, desafiam ou questionam, de várias formas, o consenso da corrente dominante da ciência segundo a qual a Síndrome da Imuno-Deficiência Adquirida (AIDS, ou SIDA) é causada pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV).
ACT-UP - SILENCE=DEATH
Slogan que rompeu o silêncio em relação à AIDS, exigindo medidas rigorosas para o enfrentamento da epidemia por intermédio de programas de pesquisa em HIV/AIDS, visando o melhoramento nos tratamentos e no acesso a eles.
SPARGO, 1999, p. 36-37 – Foi no contexto do ativismo relacionado com a questão da AIDS e da rejeição de estratégias assimilacionistas que “queer” foi reconfigurada na sua forma corrente tanto na cultura popular quanto na teoria. Influenciado por ACT UP e outras estratégias ativistas com relação à AIDS, outros agrupamentos fundados em Nova Iorque em 1990 sinalizavam em seus nomes e na sua retórica a reapropriação de um termo que até então tinha sido predominantemente ligado como homofobia e preconceito.
QUEER NATION
Movimento Ativista Gay descendente direto da ACT UP, surgido nos USA em 1990 a qual distribuía um folheto intitulado Eu odeio [straigths – em linha reta] (os certinhos - heterosexual), lançando seu manifesto contra uma sociedade heterocêntrica que define a sexualidade a partir do procriacionismo, conclamando a comunidade gay a resistir.
Conhecido pelo seu grito de guerra We’re here, we’re queer, get used to it (Nós estamos aqui, nós somos queer, se acostumem com isso), reivindicaram e ressignificaram o termo “queer” em lugar de “gay” e “lésbica”.
MUSSKOPF, alega que embora não seja possível estabelecer uma relação direta entre os movimentos como Queer Nation e o desenvolvimento da Teoria Queer, há uma relação importante entre os objetivos desses movimentos e a hermenêutica política apresentada por feministas como Teresa de Lauretis, Eve K. Sedgwick e Judith Butler, às primeiras a fazerem uso deste termo no âmbito acadêmico.
TEORIA QUEER
A Teoria queer, oficialmente queer theory, é uma teoria surgida nos Estados Unidos em meados da década de 1980 a partir das áreas de estudos gay, lésbicos e feministas fortemente influenciada pela obra de Michel Foucault, tendo alcançado notoriedade a partir de fins do século passado. É uma teoria de gênero que afirma que a orientação sexual e a identidade sexual ou de gênero dos indivíduos são o resultado de um constructo social e que, portanto, não existem papéis sexuais essencial ou biologicamente inscritos na natureza humana, antes formas socialmente variáveis de desempenhar um ou vários papéis sexuais.
A Teoria queer recusa a classificação dos indivíduos em categorias universais como "homossexual", "heterossexual", "homem" ou "mulher", sustentando que estas escondem um número enorme de variações culturais, nenhuma das quais seria mais "fundamental" ou "natural" que as outras.
3 – FUNDAMENTOS DA HERMENÊUTICA QUEER
ü  O sentido está não só nas palavras de um texto, mas também nos silêncios, nos vãos. (Permite-se que uma obra esteja aberta a inúmeras interpretações)
ü  Percepção do corpo, lugar hermêutico da realidade apreendida por excelência. (A percepção é a fonte do saber e não é a reflexão científica e intelectual que determina o que é verdadeiro – Merleau-Ponty)
ü  Em nossos corpos estão inscritas construções sociais, culturais, religiosas, ideológicas, etc., a qual damos sentido ou validação a determinadas práticas, crenças e costumes.

O termo “Queer” tem seu significado para o português em um contexto muito difícil como muito outros termo de língua estrangeiras, fica mais fácil entender qual o sentido que o termo era utilizado segundo Butler:
“Queer adquire todo o seu poder precisamente através da inovação reiterada que o relaciona com acusações, patologias e insultos”(Butler, 2002, p.58).
Por isso, a proposta  é  dar um novo significado ao termo, passando a entender queer como uma prática de vida que se coloca contra as normas socialmente aceita. Os teóricos queer se empenham em desenvolver uma crítica ao que se convencionou chamar de “heteronormatividade homofóbica”, defendidas por aqueles que vêem o modelo heterossexual como o único correto e saudável.
“Os estudos queer atacam uma repronarratividade e uma reproideologia, base de uma heteronormatividade homofóbica, ao naturalizar a associação entre heterossexualidade e reprodução”(Lopes, 2002, p.24).
Para entendermos a metodologia da hermenêutica queer, utilizaremos a definição que André Musskopf emprega na defesa de sua tese do mestrado “Talar Rosa”, onde decorre sobre a hermenêutica e corporeidade queer.
Hermenêutica – a arte de compreender, como diálogo e comunicação entre texto(não só escrito)”.
As possibilidades  se abrem para as diferentes abordagem que este conceito abre são inúmeras, citadas algumas que mais aparecem dentro da hermenêutica queer.
 -  construção de identidade;
 - papeis sociais;
 - políticas públicas;
 - ideologia de mercado; etc
  São algumas questões que lidam diretamente com pressupostos hermenêuticos.
Nos discursos sobre espiritualidade masculina gay Donald L. Boivert identifica quatro métodos para interpretar essa realidade a saber:
1 – Apologético – que é fundamental e com altos padrões de pesquisa acadêmica, visa “interpretar ou reinterpretar ensinamento religioso tradicionalmente negativos sobre homossexualidade”.
2 – Terapêutico – busca colocar a experiência individual de ser gay em um contexto positivo, legitimo, celebrativo e psicologicamente saudável.
3 – Ecológico – busca uma aproximação ao mundo natural e à comunidade humana, levantando questões éticas e filosóficas fundamentais numa maneira mais holística.
4 – Autobiográfico – que trata da experiência religiosa vivida de homens gay.
Principio da Corporeidade.
 o corpo é o lócus fundante da experiência, mas também da compreensão de que na experiência de homens gay o corpo é definido socialmente a partir da sexualidade”.
“No campo da linguagem as palavras não podem ser consideradas como vestimenta do pensamento, mas são um prolongamento do corpo. Elas são como gestos. Em termos hermenêuticos, o sentido está não só nas palavras de um texto mas também nos silêncios, nos vão, e isso permite que uma obra esteja aberta a inúmeras interpretações”.  
O PRIMADO DA PERCEPÇÃO E TEOLOGIA DO CORPO: HERMENÊUTICO.
O corpo na filosofia de Merleau-Ponty, no seu livro “o primado da percepção”, discute centralmente a questão da “percepção” e do “conhecimento intelectual”. Nesta obra  autor destitui a função do conhecimento cientifico e intelectual como determinante da verdade e delega a função para a percepção como fonte do saber. O argumento central está no fato de que percebemos o mundo, Deus e as pessoas com as quais nos relacionamos com, por e através do corpo. O corpo se torna o lugar hermenêutico privilegiado para uma leitura sobre as condições sociais e culturais às quais foi moldado, tanto no que diz respeito aos papéis que desempenha  enquanto  agente social, sua vivência espiritual e religiosa, quanto aos padrões de relacionamento nos quais se envolve. O momento atual de transformações constante que obriga o individuo a está sempre em movimento, nenhuma constante transformação, gerando indivíduos sem direto de construir sua liberdade, seu ambiente pessoal.
“a mutabilidade sideral cada vez mais condiciona e metamorfosea todos os aspectos da nossa vida, sobretudo o nosso corpo e sexualidade”.(Louro,Guacira Lopes p.227)
Uma reflexão sobre esses modos de ser, transitório e circunstanciais, é abordado no livro “Um corpo estranho: ensaio sobre sexualidade e teoria queer” de Guacira Lopes Louro. Que nos ajuda a compreender como elementos da teoria queer pode nos ajudar a entender as mutações corporais e as fronteiras de sexualidade e de gênero. A obra é dividida em quatro ensaios onde a autora trabalha os elementos queer, mas antes de apresentar os ensaios resumidamente é preciso entender o que a autora define como ser “queer”.
 Segundo Guacira :
“Queer é estranho, raro, esquisito. Queer é também, o sujeito da sexualidade desviante – homossexuais, bissexuais, transexuais, travestis, drags. É o excêntrico que não deseja ser “integrado” e muito menos “tolerado”. Queer é um jeito de pensar e de ser que não aspira o centro nem o quer como referência; um jeito de pensar e de ser que desafia as normas regulatórias da sociedade, que assume o desconforto da ambiguidade, do “entre lugares”, do indecidível. Queer é um corpo estranho, que incomoda, perturba, provoca e fascina.(Louro,2004,p.7-8)” 
O primeiro ensaio – “viajantes pós-modernos” – Diz que a viagem transforma o corpo, o caráter, a identidade, o modo de ser e de está do sujeito. Na viagem o importante não é a partida ou a chegada, mas o deslocamento, a travessia, o movimento e as mudanças que se dão ao longo do trajeto. A viagem também é usado para discutir a condição de pessoa que se desvia das rígidas e convencionais definições de gênero, ser homens ou mulheres, de matrizes heterossexuais ou homossexuais.
O segundo ensaio – “Uma política pós-identitária para a educação” – A autora recorre a elementos da teoria queer e demonstra que essa teoria ultrapassa políticas de teorização gay e lésbica, devendo ser compreendidas num campo mais amplo do pós-estruturalismo. Guacira propõe uma espécie de pedagogia queer, capaz de pensar a ambiguidade, a multiplicidade e a fluidez das identidades sexuais e de gênero; novas formas de pensar a cultura, o conhecimento, o poder e a educação.
O terceiro ensaio – Estranhar o currículo – propõe que a pedagogia queer não se desenvolve sem um currículo capaz de dá conta da diversidade corporal, sexual e de gênero, isto porque no atual currículo não há espaço para a idéia de multiplicidade(de sexualidade e gênero).
O quarto ensaio – “Marcas do corpo,marcas de poder” – neste ensaio há analise sobre a condição do corpo, pois é nele “que os processos de afirmação ou transgressão  das normas regulatórias se realizam e se expressam.   
FAZENDO HERMENEUTICA QUUER.
O texto de 1Co 12.12-27 oferece uma porta de entrada para a discussão desse assunto ao tematizar a vivência comunitária, comparando-a à experiência corporal. Embora o texto, de um modo geral, seja usado para defender a unidade da comunidade em face da diversidade de seus membros, ele traz também a possibilidade de uma reflexão sobre como vivemos nossos corpos individualmente. O texto revela a simultaneidade entre ser corpo individual e ser corpo com os outros.
“Paulo é um cristão convertido(At 9.1-9), que foi educado dentro da religião judaica(At 22.3 e 23.6). Ele nasceu na diáspora(At. 22.3), onde respirou a cultura helênica e tinha à disposição os meios para informar e convencer as pessoas a respeito da novidade de  Cristo, tanto a língua grega como idéias de correntes filosóficas de sua época(cf. 1Co. 15.33)”.
Paulo chega em Corinto e encontra uma cidade em pleno florescimento econômico, religioso e turístico.Encontra também diversas “associações” ou “confrarias”, instituições que congregavam pessoas de diferentes classes com objetivos sociais ou religioso comum.
Paulo com sua doutrina exclusivista entra em conflito com a sociedade de Corintos, embora todos que quisesse poderiam ser aceito independente de classe social, escravos, livres, etc.
Para essas pessoas, participar da nova comunidade significava assumir novas posturas éticas e de comportamento, que muitas vezes entram em choque com a realidade social e cultural em que viviam.
Depois da partida de Paulo, Apolo chegou a Corinto(At. 18.24-28) e deu continuidade a obra, também chegaram discípulos de “Pedro, o que gerou a divisão em torno do culto a personalidade(1 Co 1.12).
O sincretismo(cultura, pensamento local)sempre foi o grande desafio para as comunidades no âmbito grego.
Por esse motivo os membros da comunidades passaram a ver seus professores como filósofos itinerantes e a sua fé como a nova “sophia”, a sophia divina, a ênfase na sophia e na gnose, provavelmente advinda de movimentos pré-gnosticos gregos, está estreitamente relacionada ao carismatismo que emergiu na comunidade, pois ambos são vistas como dons do Espírito de Deus. Assim desenvolveu-se uma supervalorização das experiências pneumáticas na comunidade, especialmente a glossolalia.
“Durante sua estada em Éfeso, Paulo escreveu a carta aos coríntios. Em meio às nuvens cinzentas que pairam sobe a comunidade cristã em corinto, a carta de Paulo é a chuva que cai, buscando refrescar e fazer brotar nova vida. Nessa carta, 1Co 12 1-31 abre a discussão sobre os carismas e suas importância para a edificação da comunidade. Os vv.4-11 falam da diversidade dos dons e da unidade em sua fonte; os vv.27-31 retomam o tema da diversidade dos dons e da pluralidade do serviço; e os vv.12-26 funcionam como exemplo, utilizando a imagem do corpo. E assim surge o arco-íris signo da unidade e da diversidade”.
A teoria dos “pneumatikoi” – valorização do espírito e desprezando o corpo.
“... vivemos numa sociedade em que o corpo tornou-se um produto e um meio de produção, carente de sentido”.  
CORPO CONCEPÇÃO DE PAULO.
Paulo por ser de origem judaica compreende corpo como “unidade indivisível, que abrange o ser humano como um todo”.
“o assunto, no fundo, tem a ver com a maneira como reagimos diante do “outro”, quer dizer, aquele que não é como eu e minha gente, aquele que não pensa como nós, aquele que se comporta de forma distinta da nossa. Tem sido comum na história humana que o reconhecimento da alteridade desemboque em um enfrentamento no qual um sujeito percebe o “outro” como uma ameaça para sua própria  maneira de ser e por conseguinte, um inimigo que deve ser dominado ou eliminado”.
 Antes de seguirmos faze-se necessário que conceituemos alguns termos  que aparecem muito dentro da teologia queer e consequentemente ao se fazer a hermenêutica queer poderia causar confusão, as definições é segundo André Musskopf:
 sexo refere-se ao dado físico-biológico, marcado pela presença de aparelho genital e outras características fisiológicas que diferenciam os seres humanos como machos e fêmeas; além destas, a partir de pesquisas recentes, também o código genético precisa ser considerado na constituição do sexo, o que complexifica as definições neste âmbito, cujo principal exemplo são as inúmeras formas de intersexualidade;
 gênero refere-se ao dado social, formado por um aparato de regras e padrões de construção corporal e comportamento que configuram a identidade social das pessoas a partir do substrato físico-biológico, do que resultam identificações como masculino e feminino, bem como as múltiplas variantes que desviam da norma, como androginia, travestismo, efeminação ou masculinização, por exemplo;
 sexualidade refere-se ao dado sexual, que se define pelas práticas erótico-sexuais nas quais as pessoas se envolvem, bem como pelo desejo e atração que leva a sua expressão (ou não) através de determinadas práticas. Esse dado também é chamado por alguns/as de “orientação sexual”, e comumente classifica as pessoas em “heterossexuais”, “homossexuais” e “bissexuais”.
Assim como Eve Kosovski Sedgwick, Teresa de Lauretis e Judith Butler, precursoras da Teoria Queer, os estudos de muitas outras feministas serviram de inspiração e base para os/as teóricos/as que agora se colocam sob a categoria queer. 5
T. SPARGO, Foucault and Queer Theory, p. 31
A. STEIN; K. PLUMMER, “I can’t even think straight”, p. 134. “Medicalização” é um conceito que se refere aos estudos desenvolvidos em torno da homossexualidade no século XVIII e XIX no campo da medicina e da psicologia e psicanálise que acabaram por criar o que M. FOUCAULT, História da sexualidade – Vol. 1, p. 43-44 chamou de “uma nova espécie”. Segundo ele: “a sodomia – a dos antigos direitos civil ou canônico – era um tipo de ato interdito e o autor não passava de seu sujeito jurídico. O homossexual do século XIX tornou-se uma personagem: um passado, uma história, uma infância, um caráter, uma forma de vida; também uma morfologia, com uma anatomia indiscreta e, talvez, uma fisiologia misteriosa. (...) A homossexualidade apareceu como uma das figuras da sexualidade quando foi transferida, da prática da sodomia, para uma espécie de androginia interior, um hermafroditismo da alma. O sodomita era um reincidente, agora o homossexual é uma espécie”.
E. K. SEDGWICK, Tendencies, p. 8.
Conforme W. B. TURNER, A genealogy of Queer Theory, p. 5, “As preocupações de teóricos/as queer por sexualidade, gênero, e a relação entre os dois, assim como suas ramificações políticas e intelectuais, crescem distintamente da atividade acadêmica e política feminista tanto quanto, senão mais do que, da atividade acadêmica e política gay”.
Conforme D. LOPES, Estudos gays e estudos literários: “No caso brasileiro, se não podemos falar de um campo ainda, também não podemos proceder como se nada houvesse sido feito. Se a base para a emergência dos estudos gays e lésbicos, em última instância, remete a constituição do que Foucault chamou de sexo rei na segunda metade do século 19 e da necessidade de se demarcar entre uma heterossexualidade e de uma homossexualidade (...) é de vital importância os trabalhos que foram feitos pela história, antropologia e psicanálise brasileiras e brasilianistas, no sentido de conhecer melhor a sexualidade brasileira, como os trabalhos de Peter Fry, Edward MacRae, Néstor Perlonger, Luiz Mott, Maria Luiza Heilbron, Richard Parker, Jurandir Freire Costa, Carlos Alberto Messeder Pereira, James Green, Tânia Swain, entre outros” (disponível em http://www.ufrj.br/pacc/beatriz.html).
Veja informações sobre a ABEH em www.unb.br/fac/abeh/, e http://www.fafich.ufmg.br/~abeh/historia.htm. Veja anais dos congressos da ABEH: R. SANTOS; W. GARCIA (eds.), A Escrita de Adé; D. LOPES et al (org.), Imagem & diversidade sexual;  ABEH, Discursos da diversidade sexual.
Corporeidade – Onde sexo, gênero e sexualidade se encontram
O que sexo, gênero e sexualidade têm em comum, assim como com todas as outras características que compõem as identidades dos seres humanos, é que elas são significadas em nossos corpos. O termo “corporeidade”, não se refere apenas ao corpo humano como conjunto de órgãos e partes, mas ao ser humano enquanto presença corporal e a sua relacionalidade consigo mesmo, com outras pessoas, com a natureza e com a divindade.
Alguns modelos de corporeidade queer nos ajudam a perceber as limitações de nossas análises de gênero quando desvinculadas da reflexão sobre a sexualidade em suas múltiplas e inúmeras manifestações. Guacira Lopes Louro menciona o exemplo da drag queen que explicitamente fabrica o seu corpo e, segundo a autora:
...repete e subverte o feminino, utilizando e salientado os códigos culturais que marcam esse gênero. (...) Sua figura insólita ajuda a lembrar que as formas como nos apresentamos como sujeitos de gênero e de sexualidade são, sempre, formas inventadas e sancionadas pelas circunstâncias culturais em que vivemos. 13
Em outro texto 14, além de fazer referência às drag queens, trabalhei com o exemplo de travestis, strippers e transformistas, para propor a “corporeidade” como paradigma hermenêutico capaz de ajudar na desconstrução de modelos engessados de vivência de gênero e sexualidade construídos e codificados nos corpos. Enquanto que strippers buscam ressaltar as formas consideradas masculinas para despertar o desejo, transformistas constróem em seu corpo masculino uma figura feminina ideal, subvertendo as prescrições de seu sexo e gênero, e travestis utilizam ainda medicamentos e cirurgias construindo seu corpo e uma determinada vivência da sexualidade. Todas estas pessoas constróem seu corpo, em situações e por motivos diversos, atribuindo-lhe significados que misturam sexo, gênero e sexualidade fora do paradigma heterocêntrico.
O exemplo de construção de sexo, gênero e sexualidade descrito no início deste texto apresenta uma pessoa que nasceu com características físico-biológicas femininas, fez cirurgia de adaptação de sexo e se identifica como um homem gay. Dentro de uma perspectiva heterocêntrica poder-se-ia inferir que, se esta pessoa sentia atração erótico-sexual por outros homens, melhor se permanecesse com uma construção físico-biológica feminina. Isto também evidencia o fato de que até a linguagem, por heterocêntrica, é limitada para expressar esta realidade. Neste caso, no entanto, sexo, gênero e sexualidade se misturam de uma maneira surpreendente para quem está acostumado a um padrão único de relação entre estes aspectos da vida humana e exigem novas formulações. Pois, quando sexo, gênero e sexualidade se encontram, as possibilidades são múltiplas.
Falando da produção teórica no campo da Teologia nos últimos 40 anos, Peter T. Nash afirma que:
De alguma maneira, os grandes Pais da Teologia desde o primeiro século até a metade do século XX são apresentados como tendo praticado a sua arte sem nenhum contexto social e, então, subitamente, asiáticos, mulheres, negros, gays e latino-americanos começaram a infectar a pureza teológica com seus corpos e suas perguntas e afirmações em torno do corpo.


REFERÊNCIAS
MUSSKOPF, André Sidnei. Hermenêutica e corporeidade queer. In ______ Talar Rosa: um estudo didático-histórico-sistemático sobre a Ordenação ao Ministério Eclesiástico e o exercício do Ministério Ordenado por homossexuais. 2004. 200 f. Il. Dissertação (Mestrado em Teologia e História)-Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Teologia, Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2004. p. 116-121.
MUSSKOPF, André Sidnei. Teologia Queer. In ______ Via(da)gens Teológicas: itinerários para uma teologia queer no Brasil . 2008. 515 f. Il. Tese (Doutorado em Teologia)-Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Teologia, Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2008. p. 142-160.
TEORIA QUEER. In: Wikipédia a enciclopédia livre. Lisboa: Wikipedia, 2007. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_queer>. Acesso em: 28 mai. 2011.